Olá, queridos leitores. Hoje estou aqui para falar do tema que mais amo, mas de um jeito diferente do que estou habituada. Apesar de não jogar há muito tempo, devido a rotina agitada e cheia de afazeres, tenho um convite a fazer a todos vocês: vamos conhecer o jogo “Investigação Póstuma?”
Quem gosta de literatura, principalmente de Machado de Assis, já sacou qual a obra literária que inspirou esse jogo. Mas, não é só isso. Além de se tratar da investigação da principal personagem do livro “Memórias Póstumas de Brás Cubas”, o jogo resgata outras personagens de Machado de Assis.
O jogo Investigação Póstuma é uma produção brasileira do estúdio Mother Gaia que combina literatura clássica com narrativa interativa e estética noir. Para quem não sabe, a estética noir surgiu no cinema norte-americano das décadas de 1940 e 1950, influenciada pelo expressionismo alemão, pelo realismo ético francês e pela literatura policial pulp americana. O termo “noir”, que significa “negro” em francês, reflete tanto a paleta visual escura quanto os temas pessimistas das histórias.
A estética noir é marcada por uma atmosfera sombria, fatalista e moralmente ambígua, combinando visuais contrastantes com narrativas de crime e personagens complexos.
A trama se desenrola em um loop temporal de 24 horas: se o jogador não desvendar o mistério, o dia reinicia, mas o conhecimento adquirido permanece, permitindo explorar novas hipóteses e manipular os suspeitos. Essa mecânica cria uma experiência de investigação dinâmica e estratégica.
O jogo é fortemente inspirado na obra de Machado de Assis, trazendo outros personagens icônicos como Bentinho e Capitu (Dom Casmurro), Dr. Simão Bacamarte (O Alienista) e Quincas Borba.
A atmosfera mistura drama, comédia e filosofia, refletindo o estilo machadiano de explorar contradições humanas e críticas sociais.
Em termos de jogabilidade, trata-se de um point-and-click narrativo, com 14 personagens que seguem rotinas próprias. O jogador deve observar, interrogar e descobrir contradições para avançar.

Investigação Póstuma é uma obra que se destaca por unir a tradição literária brasileira com mecânicas modernas de narrativa interativa, criando uma experiência única tanto para fãs de Machado de Assis quanto para quem aprecia jogos de mistério e investigação.
O que Investigação Póstuma faz é traduzir os grandes temas de Machado de Assis para a linguagem dos videogames, sem perder a essência filosófica e irônica que marca sua obra:
- Pessimismo e desencanto: O loop temporal de 24 horas é uma metáfora poderosa. Não importa quantas vezes o jogador tente, o dia sempre recomeça. Isso ecoa o pessimismo machadiano: a ideia de que o ser humano está condenado a repetir seus erros, preso em ciclos de vaidade e fracasso.
- Ironia e humor ácido: Brás Cubas, mesmo morto, continua sendo o guia da narrativa. Sua presença no “Limbo” funciona como uma voz sarcástica, lembrando o leitor-jogador de que a vida é feita de contradições e que até a investigação mais séria pode ser atravessada por um comentário mordaz.
- Fragilidade das paixões humanas: Os suspeitos, Bentinho, Capitu, Quincas Borba, Bacamarte, não são apenas personagens de mistério, mas representações das paixões e falhas humanas. Bentinho carrega o ciúme, Capitu a ambiguidade, Bacamarte a obsessão pela razão, Quincas Borba a loucura filosófica. Cada rotina que o jogador observa é uma dramatização dessas fragilidades.
- Crítica social: O cenário noir de 1937, com suas sombras e tensões políticas, reforça a crítica machadiana às estruturas sociais. O jogo não se limita a um enigma policial; ele sugere que o crime é apenas um sintoma de uma sociedade marcada por desigualdade, vaidade e poder.
Investigação Póstuma não é só um jogo de mistério. É uma experiência literária interativa, onde cada mecânica (o loop, os diálogos, as contradições) funciona como tradução dos temas centrais de Machado. Jogar é como participar de uma leitura crítica: você não apenas desvenda um crime, mas também revisita, em forma lúdica, as ironias e desencantos que definem a literatura machadiana. Abaixo, o trailer oficial para vocês:
Diferenças na abordagem
- Estrutura narrativa: Enquanto o romance é fragmentado, cheio de digressões e capítulos curtos que quebram a linearidade, o jogo organiza a experiência em ciclos temporais. A fragmentação machadiana se traduz em mecânica: cada reinício é uma nova digressão, mas guiada pela lógica do gameplay.
- Participação do leitor/jogador: No livro, o leitor é constantemente interpelado por Brás Cubas, convidado a refletir e rir de si mesmo. No jogo, essa participação se torna ativa: o jogador precisa interrogar, observar e manipular personagens, assumindo o papel de investigador. É uma transposição da ironia literária para a agência interativa.
- Estética noir: Machado escrevia em um contexto oitocentista, com crítica social voltada para o Brasil imperial. O jogo desloca essa crítica para um Rio de Janeiro de 1937, em preto e branco, evocando o cinema noir. Essa mudança estética atualiza o pessimismo machadiano para um cenário urbano moderno, marcado por sombras e tensões políticas.
Investigação Póstuma não é apenas um jogo de mistério: é uma reinterpretação criativa da obra de Machado de Assis. Ele mantém o núcleo filosófico, pessimismo, ironia, crítica social, e o traduz em mecânicas modernas e estética noir. Confesso que não sou fã de jogar em PC, mas essa experiência me conquistou. Recomendo fortemente a todos que apreciam literatura, filosofia ou simplesmente um bom enigma interativo. Machado de Assis continua vivo e provocador, agora também nos videogames.











