Existem histórias que conseguem ultrapassar os limites de seu formato original. Algumas começam nos livros e chegam ao cinema, outras nas telas e conquistam o público dos quadrinhos. No universo dos videogames, poucos exemplos representam isso quanto The Legend of Zelda. Criada pela Nintendo, a franquia construiu um mundo tão rico em personagens, lugares, criaturas e mitologia que suas aventuras parecem destinadas a ganhar outras formas de expressão.
Entre as diferentes adaptações já produzidas, uma merece atenção especial: o mangá de The Legend of Zelda: Ocarina of Time, da dupla japonesa “Akira Himekawa“. Publicada originalmente no Japão em 2000, a adaptação transformou uma das aventuras mais importantes da história dos videogames em uma narrativa ilustrada, preservando os principais acontecimentos da jornada de Link, mas acrescentando elementos próprios que ajudam a explorar melhor os personagens e suas relações.
No Brasil, essa obra ganhou uma edição especial publicada pela Panini, dentro da coleção The Legend of Zelda: Perfect Edition. Com 384 páginas, o volume reúne a história completa de Ocarina of Time, incluindo conteúdos adicionais que ampliam a experiência de quem já conhece o jogo. É uma publicação que merece ser apresentada não apenas aos fãs da Nintendo, mas também aos leitores de mangás e quadrinhos que gostam de histórias de fantasia, aventura e construção de universos.
E existe uma razão especial para revisitá-la neste momento. Com a chegada da nova edição de Ocarina of Time ao Nintendo Switch 2, temos uma oportunidade de olhar novamente para essa aventura por outro ângulo. Afinal, antes de reencontrarmos Hyrule pelos controles de um videogame, também podemos percorrer seus caminhos pelas páginas de um mangá.
Porque Link não precisa estar diante de uma tela para continuar sendo o Herói do Tempo e consegue também nas páginas do mangá.

Quando a lenda de Hyrule encontrou o universo dos mangás
Para compreender a importância dessa adaptação, precisamos conhecer um pouco da trajetória de The Legend of Zelda. A franquia nasceu em 1986, no Japão, quando Shigeru Miyamoto e Takashi Tezuka ajudaram a apresentar uma aventura que valorizava exploração, descoberta e liberdade. Em vez de conduzir o jogador por uma sequência rígida de fases, o jogo oferecia um mundo no qual era necessário investigar caminhos, encontrar objetos, solucionar desafios e descobrir o mundo de Hyrule.
Essa proposta evoluiu ao longo dos anos e encontrou um de seus momentos mais importantes em Ocarina of Time, lançado originalmente em 1998 para o Nintendo 64. A passagem para o ambiente tridimensional ampliou as possibilidades de exploração e permitiu que Link percorresse um reino com diferentes regiões, personagens e desafios. A história também ganhou uma dimensão emocional maior ao apresentar a transformação do protagonista de criança em adulto e mostrar as consequências de uma ameaça que alterou completamente o destino de Hyrule.
Foi essa aventura que despertou o interesse de Akira Himekawa para uma adaptação em mangá. É importante esclarecer que Akira Himekawa é o pseudônimo utilizado pela dupla japonesa formada por A. Honda e S. Nagano, que trabalham em conjunto desde o início de 1990.
As duas desenvolveram diversas adaptações de jogos da Nintendo e construíram uma identidade artística própria dentro dos mangás.
A versão de Ocarina of Time foi publicada originalmente no Japão em dois volumes, lançados em janeiro e abril de 2000, pela editora Shogakukan. A história foi organizada em duas grandes partes, acompanhando a infância e a vida adulta de Link. Posteriormente, o material foi reunido em edições especiais, permitindo que os leitores acompanhassem a aventura completa em um único volume.
A escolha de adaptar Ocarina of Time fazia bastante sentido, pois o jogo possui uma narrativa estruturada em acontecimentos marcantes, personagens com identidades bem definidas e uma mitologia que combina fantasia, profecias, magia e conflitos entre diferentes povos. Esses elementos oferecem uma base muito interessante para a linguagem dos quadrinhos japoneses, que consegue trabalhar simultaneamente com ação, expressões faciais, diálogos e momentos de silêncio.
Entretanto, transformar um videogame em mangá exige mais do que simplesmente reproduzir suas cenas. No jogo, o jogador participa diretamente da aventura, decide para onde ir, enfrenta inimigos e descobre os acontecimentos por meio da exploração. No mangá, essa experiência precisa ser reorganizada em uma narrativa linear, conduzida por páginas, quadros e diálogos.
É nesse processo que a adaptação ganha personalidade. Akira Himekawa preserva os principais acontecimentos da aventura, mas desenvolve situações e relações que não aparecem da mesma maneira no jogo. O resultado não é uma reprodução exata do original, mas uma interpretação em quadrinhos que aproveita as possibilidades de sua própria linguagem.
Para quem conhece o videogame, essa diferença é especialmente interessante. A história familiar ganha novos momentos, alguns personagens recebem maior espaço e determinadas situações são apresentadas sob outra perspectiva. Para quem nunca jogou Ocarina of Time, o mangá funciona como uma porta de entrada para o universo de Zelda, permitindo conhecer a jornada de Link sem precisar dominar os controles ou conhecer previamente a mitologia da franquia.

Link, Zelda e Ganondorf: uma aventura com novas emoções
A história começa na Floresta Kokiri, onde Link vive entre os habitantes de uma comunidade protegida pela Grande Árvore Deku. Ele é diferente dos outros moradores, principalmente por ainda não possuir uma fada companheira. Sua vida muda quando Navi aparece e a própria Grande Árvore Deku revela que uma ameaça está se aproximando de Hyrule. A partir desse momento, Link inicia uma jornada que o leva ao encontro da Princesa Zelda e ao confronto com Ganondorf, o ambicioso líder dos Gerudo. O objetivo é impedir que o poder da Triforce seja utilizado para dominar o reino.
A adaptação de Akira Himekawa acompanha essa estrutura, mas oferece maior espaço para a personalidade de Link. No videogame, o protagonista é silencioso, permitindo que o jogador se projete em suas ações. No mangá, entretanto, Link fala, reage, demonstra sentimentos e estabelece relações por meio de diálogos. Essa mudança é importante porque transforma o personagem em um protagonista mais explícito dentro da narrativa.
A relação com Saria, sua amiga da Floresta Kokiri, ganha uma dimensão emocional particular. A amizade entre os dois ajuda a representar o momento em que Link precisa deixar seu lar e enfrentar um mundo muito maior do que aquele que conhecia. Existe uma sensação de despedida e amadurecimento que combina com a própria essência da aventura: crescer significa, muitas vezes, abandonar a segurança de um lugar conhecido para assumir responsabilidades que ainda não compreendemos completamente. Além disso, Zelda também ocupa um papel importante, pois a princesa não é apresentada apenas como alguém que precisa ser resgatada, mas como uma personagem ligada ao destino de Hyrule e aos acontecimentos que envolvem a Triforce.
Ganondorf, por sua vez, representa a ameaça que transforma a aventura em uma disputa pelo futuro do reino. Sua ambição pelo poder da Triforce conduz os acontecimentos e coloca Link diante de desafios que ultrapassam sua capacidade. A adaptação preserva o conflito central do jogo, mas utiliza os recursos dos quadrinhos para desenvolver as motivações dos personagens.
Um dos momentos mais interessantes é a passagem entre a infância e a vida adulta de Link. Depois de obter a Espada Mestra, o herói desperta em uma Hyrule transformada, marcada pela influência de Ganondorf. O tempo, que já desempenhava um papel fundamental no videogame, também se torna um elemento narrativo muito forte no mangá. Essa transformação não representa apenas uma mudança física do protagonista, pois Link precisa compreender que o mundo que conhecia deixou de existir e que muitas pessoas passaram a viver sob as consequências de Ganondorf.
A aventura ganha uma dimensão melancólica, pois o herói precisa recuperar algo que foi perdido enquanto ele adormecia.
As masmorras, os confrontos e os encontros com personagens conhecidos também recebem uma apresentação diferente. O Templo da Floresta, o Templo do Fogo, a região dos Zoras e o Deserto Assombrado ajudam a manter a diversidade da jornada. A adaptação utiliza os enquadramentos e o ritmo das páginas para representar a ação, mas também reserva espaço para os diálogos e os sentimentos que acompanham os acontecimentos.
Um detalhe interessante é que o mangá apresenta uma interpretação própria de alguns elementos da mitologia de Zelda. Isso fica particularmente evidente na maneira como os personagens se relacionam e em determinadas situações que não possuem exatamente o mesmo desenvolvimento no jogo. Portanto, é importante compreender que estamos diante de uma adaptação oficial, mas não de uma transcrição integral de tudo o que o jogador experimenta no Nintendo 64.
A dupla Himekawa também acrescentou histórias extras que ajudam a ampliar o universo. Entre elas está o capítulo relacionado a Skull Kid e às máscaras, uma referência para quem conhece The Legend of Zelda: Majora’s Mask. Há ainda uma história adicional envolvendo os Watarara, povo que não ocupa o mesmo espaço na narrativa principal do videogame.
Esses conteúdos ajudam a tornar o mangá uma leitura especialmente interessante para os fãs mais antigos. Em vez de apenas acompanhar uma história já conhecida, o leitor encontra elementos adicionais que ampliam a experiência e oferecem novas perspectivas sobre o universo criado pela Nintendo. A arte também merece destaque. O desenho de Akira Himekawa combina expressões marcantes, cenas de ação e ambientes de fantasia, mantendo uma identidade visual que funciona bem tanto nos momentos mais tranquilos quanto nas batalhas. A composição dos quadros permite que a aventura avance com ritmo, enquanto as expressões dos personagens ajudam a transmitir emoções que, no jogo, dependiam de animações, música e participação direta do jogador.
É nessa combinação que o mangá encontra seu espaço, pois ele não pretende substituir o videogame, mas oferecer outra maneira de experimentar uma história que já conquistou milhões de pessoas. O resultado é uma aventura que preserva o espírito de Ocarina of Time enquanto constrói sua própria identidade narrativa.

A edição brasileira e o valor que atravessa gerações
No Brasil, o mangá de The Legend of Zelda chegou por meio da Panini, utilizando o selo Planet Manga. O anúncio da publicação aconteceu em 2017, e a coleção foi organizada em cinco volumes especiais, reunindo diferentes adaptações de jogos da franquia produzidas por Akira Himekawa.
O primeiro volume foi dedicado a Ocarina of Time. A edição brasileira recebeu o nome de The Legend of Zelda: Perfect Edition e apresentou um formato de luxo, com 384 páginas, capa especial e conteúdo reunido em um único volume. A publicação chegou ao mercado nacional em dezembro de 2017, acompanhada de pôster e marcador de páginas. Posteriormente, o título também apareceu em registros de catálogo da Panini em 2020, com o ISBN 9788542608809.
Essa publicação possui um significado interessante para os leitores brasileiros. Durante muito tempo, acompanhar determinadas franquias japonesas significava depender de importações, edições estrangeiras ou materiais encontrados em lojas especializadas. A chegada de uma coleção oficial em português ampliou as possibilidades de acesso e permitiu que mais leitores conhecessem as adaptações de Zelda sem depender de outros idiomas.
A coleção Perfect Edition não se limitou a Ocarina of Time. Os cinco volumes reuniram diferentes histórias da franquia, incluindo Majora’s Mask, A Link to the Past, Oracle of Seasons, Oracle of Ages, The Minish Cap, Phantom Hourglass e Four Swords. Essa organização permitiu apresentar ao público uma parcela das adaptações de Akira Himekawa, formando uma coleção interessante para quem deseja explorar o universo de Zelda também por meio da leitura.
Para quem pretende procurar o mangá, o ISBN 9788542608809 identifica a edição brasileira, e esse número pode facilitar a busca em livrarias, sebos, lojas especializadas e marketplaces. Como se trata de uma publicação lançada há alguns anos, a disponibilidade pode variar bastante, pois é possível encontrar exemplares usados ou anúncios de colecionadores, mas os preços dependem da conservação, da procura e da presença dos materiais extras da edição original.
Também existe uma edição internacional bastante conhecida: The Legend of Zelda: Ocarina of Time: Legendary Edition, publicada pela VIZ Media. Ela reúne a adaptação em um único volume e oferece conteúdo adicional. Para quem lê em inglês, é outra possibilidade de conhecer a obra, embora a edição brasileira tenha a vantagem de apresentar a história em português.
A existência dessas publicações mostra que Zelda conseguiu ultrapassar as fronteiras dos videogames e construir uma presença importante em outras formas de entretenimento. O mangá é um exemplo especialmente interessante porque não depende apenas da popularidade da marca, pois oferece uma experiência narrativa própria, na qual os personagens podem ser desenvolvidos de maneira diferente e os acontecimentos ganham outro ritmo.
Para os leitores que já conhecem o jogo, a adaptação permite observar detalhes que talvez tenham passado despercebidos durante a aventura original. Para quem está chegando agora, oferece uma oportunidade de conhecer Link, Zelda, Ganondorf e a Triforce antes de experimentar o videogame. E, para os colecionadores, representa uma publicação especial que conecta duas paixões: os mangás e a história dos videogames.
Existe ainda um aspecto cultural que merece ser valorizado. Em uma época na qual as adaptações de jogos para séries, filmes e outras mídias ganharam grande espaço, o mangá de Ocarina of Time demonstra que essa relação não começou agora. A indústria japonesa já explorava há décadas a possibilidade de transformar universos digitais em narrativas ilustradas, ampliando o alcance de personagens que conquistaram o público por meio dos controles.
No caso de Zelda, essa expansão funciona porque a franquia possui elementos que se adaptam naturalmente a diferentes linguagens. A jornada do herói, os conflitos entre luz e escuridão, a presença de diferentes povos e a construção de um mundo fantástico permitem contar histórias que não dependem exclusivamente da interação.
A essência da aventura continua reconhecível, mesmo quando muda o formato pelo qual é apresentada.
Conclusão e reflexão
O mangá de The Legend of Zelda: Ocarina of Time é muito mais do que uma adaptação de um videogame famoso, mas uma oportunidade de revisitar uma das histórias mais importantes da Nintendo por meio de outra linguagem, com personagens desenvolvidos de maneira própria, momentos adicionais e uma apresentação visual que valoriza a fantasia e a emoção da jornada de Link.
O trabalho de Akira Himekawa demonstra como uma boa adaptação pode preservar a identidade de uma obra sem precisar reproduzi-la integralmente. Ao transformar a experiência interativa em uma narrativa linear, a dupla oferece novas perspectivas sobre os personagens e amplia elementos que, no videogame, dependiam da participação do jogador. O resultado é uma leitura que conversa tanto com os fãs antigos quanto com quem está descobrindo Hyrule agora.
Para o público brasileiro, a edição da Panini tem um valor adicional, pois ela tornou essa aventura acessível em português e reuniu, em um único volume, a adaptação completa de Ocarina of Time, incluindo histórias extras. Em um momento de renovado interesse pela franquia, essa publicação merece ser lembrada não apenas como um item de coleção, mas como parte da história de Zelda.
Talvez seja esse o maior mérito dessa obra: mostrar que uma grande aventura não precisa permanecer presa ao formato em que nasceu, pois pode ganhar novas imagens, novos diálogos e outras interpretações, sem perder aquilo que fez tantas pessoas se apaixonarem por ela.
Porque Hyrule não existe apenas nos mapas dos videogames, mas também vive nas páginas, nas lembranças e na imaginação de cada pessoa que já acompanhou a jornada do Herói do Tempo. E, quando uma história consegue atravessar tantas gerações e diferentes formas de expressão, ela deixa de ser apenas uma aventura para se transformar em uma verdadeira lenda.











