Financiamentos Coletivos De RPG: As Verdades Que Ninguém Conta

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Saudações, meus caros nerds rpgistas de plantão! Tudo bom convosco? De alguns meses para cá, todos os meus posts aqui no Universo Nerd foram sobre financiamento coletivo (FC) em RPG, sendo que os últimos eram sobre reviews de livros que eu havia recebido há pouco tempo. Porém, o marco disso ocorreu em junho quando escrevi uma matéria exaltando e incentivando os leitores a participarem desse tipo de processo em prol da comunidade. Hoje, um pouco mais calejado e consciente de como tudo isso funciona aqui no Brasil (afinal, em menos de dois anos, já participei de mais de 16 campanhas!), sinto-me na obrigação de revisitar o assunto e apresentar algumas reconsiderações profundas sobre aquilo que afirmei e defendi meses atrás.

No post mencionado, eu começo explicando o que é o tal do crowdfunding – termo inglês para “financiamento coletivo” – abordando, na sequência, seus benefícios e desvantagens, as plataformas e canais especializados em divulgar esse tipo de campanha, dentre outros detalhes. Na ocasião, as principais conclusões da discussão foram as de que esse modelo estava muito bem consolidado na comunidade e de que deveria ser incentivado, tendo em vista que seria a melhor e, talvez, única forma viável de termos jogos de RPG em nosso idioma, mantendo o hobby vivo. É exatamente sobre esses dois pontos que venho fazer um importante adendo.

Antes, sem nenhuma hesitação, já deixarei claro a resposta para a pergunta de “1 milhão de dólares”:

Afinal, vale a pena participar de financiamentos coletivos?

A resposta para essa questão, já reconsiderando minhas ideias anteriores, é um sonoro “depende de qual editora está à frente da campanha!”. Nós, brasileiros, temos fama de sermos péssimos consumidores, uma vez que a maioria de nós mal conhece os próprios direitos. Quem nos vende algum produto ou serviço sabe muito bem disso e se aproveita dessa brecha para descumprir determinadas obrigações, tendo plena consciência de que apenas uma minoria irá reclamar ou questionar. Se isso costuma acontecer na comercialização de bens e serviços, mesmo quando os consumidores contam com uma legislação específica que os protege (o Código de Defesa do Consumidor), imagine, então, o que pode acontecer com promessas de livros e outros materiais que sequer existem ainda?! É justamente nesse contexto que o financiamento coletivo (FC) se consolidou aqui no país, marcado por duas práticas desanimadoras, já mencionadas no post de junho: atrasos na entrega dos produtos e má comunicação com os apoiadores.

Então, o “depende de qual editora” como resposta à pergunta de 1 milhão de dólares leva em consideração saber identificar quais editoras recorrem a essas más práticas a fim de ficarmos longe das campanhas encabeçadas por elas?

Exatamente isso, meu nobre rpgista! Para alguém que, como eu, pretende um dia lançar um sistema próprio e publicar jogos de RPG baseados nele, fazer uma afirmação dessas pode ser um baita tiro no pé, mas vou fazê-la mesmo assim: na minha experiência, quem tem costume de conduzir suas campanhas de financiamento coletivo com esse tipo de má conduta são as grandes editoras do hobby! Quer que eu seja mais específico e cite nomes? Sem problema! Que tal New Order e Tria Editora?! Vamos aos fatos que sustentam essa minha tese.

A Tria Editora, queridinha da comunidade, gaba-se de ter financiado seus últimos 22 projetos em poucas horas e de, na sequência, liberar os arquivos dos jogos em PDF para os apoiadores. Geralmente, os livros básicos são entregues dentro do prazo ou próximo dele; o problema está nos suplementos e nos materiais das metas extras. No caso de Symbaroum, por exemplo, recebi o livro básico rapidinho. Já o Guia Avançado do Jogador, prometido para agosto de 2025, teve seu frete liberado e pago no dia 30 de maio daquele ano. Porém, imagine minha raiva e frustração por recebê-lo apenas no dia 8 de outubro! Os demais itens, como o Códice de Monstros e as Coletâneas de Aventuras, chegaram há poucos dias, ou seja, quase um ano depois! Outro exemplo, só para constar, é o de Shadow of the Weird Wizard, cuja entrega dos materiais estava prevista para março de 2026, mas que, desde agosto, conta apenas com versões preliminares dos arquivos das metas extras, ainda sem revisão. É mole?!

Considero a New Order, provável campeã de arrecadação em financiamentos coletivos neste ano, a editora que mais desrespeita seus apoiadores. Com exceção de Guardiões do Limbo, cuja entrega estava prevista para dezembro de 2025, mas que chegou às minhas mãos dois meses antes, todos os demais financiamentos coletivos de que participei por meio da editora têm me causado tanta raiva que prometi a mim mesmo jamais voltar a apoiar projetos de grandes editoras do nosso meio. Já relatei toda a tristeza que foi o processo com o Condenados ao Poder e não tornarei fazê-lo aqui; citarei, para que tomem ciência, os casos do Opera RPG, que só agora teve seu arquivo finalizado e enviado para a gráfica, com “apenas” 14 meses de atraso; e também do Oblívio RPG, prometido para julho deste ano, mas que, a esta altura, já com 3 meses de atraso, solta a seguinte nota de satisfação a seus clientes (deliciem-se!):

Pior do que lidar com a espera decorrente da falta de organização dessas editoras é perceber que 95% das comunicações enviadas por meio das plataformas utilizadas nos financiamentos coletivos são de cunho comercial! Quase diariamente, tanto o Catarse quanto a MeepleStarter lotam nossas caixas de e-mail com mensagens cujos títulos fazem referência aos jogos que apoiamos. Ao abri-las, acreditando tratar-se de atualizações sobre o andamento dos financiamentos coletivos, deparamo-nos com anúncios de novos jogos que terão suas campanhas lançadas em breve ou, pasmem, com a informação de que os próprios jogos que apoiamos (e que já estão atrasados!) ainda passarão por outras etapas de comercialização, como o late pledge (uma espécie de “pós-financiamento”) e a pré-venda, prolongando ainda mais os prazos inicialmente estabelecidos.

Não importa o quão atrasados estejam os financiamentos coletivos anteriores; não importa que a comunicação sobre o andamento do jogo que você apoiou seja praticamente inexistente e que, quando ocorre, sirva apenas para lhe empurrar mais um lançamento: poucas horas após o início de uma campanha da Tria ou da New Order, o projeto já terá atingido sua meta de financiamento! Coriolis, por exemplo, precisou de menos de duas horas para alcançar sua meta e encerrou a campanha com quase 800% do valor inicialmente pretendido! Esse tipo de situação me fez reconsiderar a conclusão do post anterior, no qual defendi a necessidade dos financiamentos coletivos para manter o hobby vivo e trazer novos jogos para o Brasil: quando se trata de apoiar projetos de grandes editoras, esse argumento simplesmente não se sustenta! É ingenuidade acreditar que essas empresas “tornam sonhos realidade” ao trazer novos jogos para o mercado brasileiro. Seu verdadeiro objetivo é vender o maior número possível de unidades da maior quantidade de títulos que conseguirem emplacar no mercado!

Com um marketing de vendas tão agressivo, ampla divulgação patrocinada nas redes sociais e portais robustos com lojas online, será mesmo que essas duas editoras precisam do nosso apoio para publicar um livro? Certamente que não! Embora o financiamento coletivo seja mais vantajoso em termos de custos e de maior quantidade de títulos que podem ser publicados, isso não significa que seja indispensável para essas empresas. É claro que não sou contra essas editoras adotarem as estratégias comerciais que lhes forem mais rentáveis. Porém, não daria para fazer isso com mais profissionalismo? Não seria possível levar mais a sério as promessas feitas e o cumprimento dos prazos estabelecidos? Nem sempre é possível colocar a culpa nas gráficas, como de costume! Afinal, um livro que, mesmo após três meses de atraso, ainda não teve suas artes finalizadas é algo injustificável! É desleixo e descaso com quem está esperando pelo produto! É por todos esses motivos que, de agora em diante, só comprarei livros dessas duas editoras diretamente em suas lojas online, depois de lançados, mesmo sabendo que pagarei mais caro do que se os tivesse adquirido por meio de uma campanha.

Aliás, o que inicialmente me motivou a participar de financiamentos coletivos foi o receio de ficar sem acesso a jogos com tiragens limitadas e sem comercialização posterior, como foi o caso de Pulse, que até hoje tento comprar, mas não consigo encontrar sequer um exemplar usado! Dessa forma, meu foco atual está nas campanhas de RPG promovidas por editoras menores ou autores independentes. Como exemplos de boas experiências, cito Tenebra, da Luz Negra, e os livros do criador e dos mortais de A Cidade do Sol a Vapor, publicados pela Odyssey. Ainda participo dos financiamentos de Radio RPG, da Universo Simulado, Investigar RPG, pela Estúdio GGAC, cujas entregas aguardo com ótimas expectativas de que os prazos sejam cumpridos; além de Warped, da Starlit Studios, que, faltando 16 dias para a data inicialmente prevista para a entrega, já anunciou um pequeno atraso. Entretanto, como compensação pelo imprevisto, a editora disponibilizará uma história inédita junto com o PDF de um dos livros da campanha. Tenho a felicidade de mencionar que, com todas essas editoras, tive ou ainda mantenho contato direto (e humano!) com seus autores! Com isso, a sensação de estar ajudando alguém a realizar o sonho de publicar um livro e, consequentemente, de fomentar a comunidade rpgística brasileira, é real!

Posto tudo dito, essas são algumas das verdades que ninguém irá te contar sobre financiamento coletivo de jogos de RPG, conforme já prometido no título desse texto, afinal, comigo não tem essa de clickbait! Boa parte da galera de maior relevância no cenário nacional do hobby, que produz conteúdo no YouTube e em outras redes sociais, é patrocinada por essas grandes editoras. Então, não espere ouvir/ler isso de mais ninguém; tampouco, se surpreenda se essas minhas reflexões forem atacadas e taxadas de falsas ou injustas. A comunidade brasileira de RPG é um nicho e um dos mais corporativistas que há! As coisas são como são, mas inconformismo e silêncio são questões de escolha; e as minhas vocês já sabem quais são.

Abraços e até breve.

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Lukas Melo

Professor e Profissional EAD, aficionado por RPG, hardware e cinema. É editor e autor do Projeto UniversoNERD.Net.