Hoje começa a Copa do Mundo de 2026, o maior evento esportivo do planeta. Nos próximos dias e semanas, bilhões de pessoas acompanharão partidas disputadas nos Estados Unidos da América, México e Canadá, compartilhando emoções, expectativas e debates que ultrapassam as quatro linhas do campo. Mais do que uma competição esportiva, a Copa do Mundo é um fenômeno social e cultural capaz de conectar pessoas de diferentes origens, idades e realidades, tornando-se também uma importante oportunidade de aprendizagem e convivência.
Atualmente, as notícias sobre a Copa do Mundo de 2026 estão por toda parte, e é difícil escapar delas. Os jogos serão transmitidos pela televisão, pela internet, em bares e cafeterias, nas salas de espera de aeroportos e em telões instalados em locais públicos. Pessoas compartilharão suas opiniões sobre as seleções que apoiam, enquanto discussões sobre partidas, jogadores e resultados serão ouvidas nas filas dos mercados, nos elevadores e nos ambientes de trabalho. Até mesmo as crianças conversarão sobre os jogos, os atletas e os placares dentro das escolas.
Sendo o evento esportivo mais assistido do mundo, o futebol exerce um enorme impacto na educação informal. Por meio dele, aprendemos sobre outros países, culturas e idiomas e, sobretudo, sobre valores fundamentais, como o jogo limpo, o trabalho em equipe, a disciplina, a perseverança e o respeito ao próximo. O esporte, e o futebol em particular, contribui comprovadamente para o empoderamento dos jovens e para o fortalecimento da coesão social, ajudando a romper barreiras étnicas, sociais, econômicas, de gênero e geracionais.
Em um mundo cada vez mais conectado, mas também marcado por divisões e conflitos, a Copa do Mundo nos lembra que a convivência, a colaboração e o respeito às diferenças são valores tão importantes quanto a busca pela vitória.

O futebol tem um poder unificador. Em sociedades frequentemente polarizadas e divididas, as divergências e diferenças são deixadas de lado quando se torce pela seleção nacional. Essas equipes representam as esperanças e aspirações de um país. As histórias dos jogadores exemplificam vidas de dedicação, disciplina e esforço, mostrando, em alguns casos, como superaram obstáculos para se tornarem jogadores profissionais e a importância do apoio familiar, especialmente de suas mães, avós e parceiros. Os jogadores são modelos para muitas crianças e jovens.
A FIFA reconhece esse poder e sua campanha diz ” O futebol une o mundo “, e a lenda do futebol alemão, Lothar Matthäus, afirma: ” O futebol é essencial para a paz mundial “.
Essas são contribuições valiosas que precisamos valorizar. Ao mesmo tempo, um conceito abrangente de paz implica mais do que reconhecer e respeitar o adversário. Implica também reconhecer todos os seres humanos como portadores de direitos e o vínculo indissociável entre nossa sobrevivência e bem-estar e a proteção do nosso planeta. É por isso que a construção da paz por meio do esporte deve considerar as práticas éticas, de direitos humanos e ambientais reais relacionadas a qualquer evento.
No caso desta Copa do Mundo, precisamos aprender e tomar as medidas cabíveis em relação às violações de direitos humanos, aos impactos ambientais e às questões éticas relacionadas à organização do evento. A Copa do Mundo pode ser uma oportunidade para a educação para a paz e a mudança social. Por exemplo, organizações de direitos humanos e sindicatos documentaram violações de direitos humanos no país, especialmente contra trabalhadores migrantes que constroem infraestruturas, e práticas discriminatórias contra mulheres e pessoas LGBTQI+ (ver, por exemplo, relatórios da Amnistia Internacional e da Confederação Sindical Internacional).
Os educadores devem aproveitar a oportunidade criada pela enorme atenção dada a este evento para discutir como o esporte (e os torcedores de futebol, neste caso) podem contribuir para sociedades mais pacíficas, justas e sustentáveis. Mas como?

Educadores em direitos humanos, educadores para a paz e educadores globais têm usado a Copa do Mundo como uma oportunidade para reflexão e ação, e há muitas ferramentas e sugestões de atividades disponíveis. Por exemplo, a Profa. Alicia Cabezudo, educadora argentina em direitos humanos e paz, escreveu um artigo por ocasião da Copa Rússia 2018, afirmando: “Temos uma oportunidade extraordinária de fazer desta celebração uma nova experiência de aprendizado no campo da educação, onde a importância da convivência, o respeito ao próximo, a interculturalidade como uma força social e o senso de trabalho coletivo em prol de objetivos sociais compartilhados podem ser discutidos como dimensões de um currículo ético e político”. Ela sugere ir além do aprendizado dos nomes dos países e aproveitar a oportunidade para pesquisar sobre eles e abordar temas como a paz como um direito humano, o respeito ao direito internacional e aos direitos humanos, e a relevância do pluralismo cultural e religioso, entre outros.
Além desse, sugiro também um artigo publicado recentemente que reforça todas as oportunidades pedagógicas, de reflexão e diálogo que um evento como este proporciona.
Além disso, foi desenvolvido pelo Conselho Nacional da Juventude da Irlanda, um recurso que oferece leituras e atividades para ajudar os jovens a compreender a globalização e como a sua relação com a economia global, a cultura, o ambiente, as forças políticas e a tecnologia pode impactar a sustentabilidade do planeta, as suas próprias vidas e as vidas de outros seres humanos. Uma dessas ferramentas é um recurso de conhecimento sobre “Direitos Humanos e a Copa do Mundo do Qatar 2022”. São apresentadas informações sobre os custos humanos, económicos e ambientais do evento, bem como sobre como as seleções nacionais, organizações e indivíduos questionaram os organizadores, instando-os a cumprir os princípios da Organização das Nações Unidas.

Vamos desfrutar do esporte e da magia que ele cria. Ao mesmo tempo, vamos usar o esporte para repensar o significado de fair play, as implicações da competição saudável e, talvez, reinventar os jogos, enfatizando a cooperação e a criatividade, onde todos possam ganhar. Os eventos esportivos também podem ser oportunidades para aprender sobre a importância da proteção dos direitos humanos de todos, da gestão e distribuição ética de recursos e da sustentabilidade ambiental.
Por fim, como estamos cada vez mais interconectados em um mundo globalizado, formamos uma equipe global e todos temos um papel a desempenhar. Nossas ações têm consequências (diretas ou indiretas) sobre os outros, e devemos estar cientes disso. Independentemente de nossa seleção nacional estar entre as classificadas ou não… independentemente de gostarmos de futebol ou não, todos devemos fazer parte da equipe “Planeta Terra“. Reflitam!











