Nos últimos anos, tornou-se cada vez mais raro terminar um filme de super-herói com a sensação genuína de que valeu a pena. Na maior parte das vezes, essas produções acabam entregando um entretenimento mediano, algumas vezes monótono, apesar de todo o investimento em efeitos visuais. Há exceções, é claro, sendo que o Homem-Aranha: Um Novo Dia entra nessa lista.
A mais recente aventura de Tom Holland mostra que ainda é possível fazer um filme de super-herói realmente muito bom. Há personagens bem construídos, arcos de desenvolvimento interessantes, momentos emocionais que funcionam e, naturalmente, grandes cenas de ação recheadas de CGI. Mas é justamente a humanidade presente no centro da história que faz o trabalho do diretor Destin Daniel Cretton funcionar tão bem. No fim, mais do que acompanhar um novo confronto do Homem-Aranha, acompanhamos Peter Parker tentando descobrir quem ele é depois de perder praticamente tudo.

Atenção: o texto contém SPOILERS!
Homem-Aranha: Sem Volta Para Casa terminou de maneira bastante sombria. Para proteger o multiverso e todas as pessoas envolvidas, Peter Parker, interpretado por Tom Holland, pediu ao Doutor Estranho, vivido por Benedict Cumberbatch, que apagasse sua existência da memória de todos. Isso incluía pessoas fundamentais em sua vida, como sua namorada, MJ, interpretada por Zendaya, e seu melhor amigo, Ned, vivido por Jacob Batalon.
Agora, Um Novo Dia parte das consequências dessa decisão. Quatro anos se passaram, e Peter agora vive isolado. Ele se dedica ao trabalho como Homem-Aranha em tempo integral, enquanto acompanha secretamente MJ e Ned pelas redes sociais durante os anos em que eles estudam no MIT.
É uma situação dolorosa: Peter continua sabendo quem eles são, mas, para eles, ele simplesmente deixou de existir.
Sem uma família ou amigos, Peter passa a viver nas ruas de Nova York, em condições precárias. Mesmo assim, continua patrulhando a cidade e mantendo seu uniforme e seus equipamentos em funcionamento. Para isso, utiliza um “fabricador” caseiro, uma espécie de combinação entre máquina de costura e impressora 3D, responsável por ajudá-lo na manutenção do traje e das teias.

Sua única amizade realmente próxima é com a detetive Jean DeWolff, interpretada por Liza Colón-Zayas. Até mesmo ela começa a perceber que Peter está trabalhando demais e praticamente não possui uma vida fora do uniforme. E a situação piora quando ele finalmente cria coragem para aparecer disfarçado em uma festa e acaba vendo MJ beijando seu novo namorado.
O impacto emocional desse momento é enorme. Todo o peso acumulado durante os últimos anos parece finalmente encontrar uma saída e desencadeia uma transformação bastante perturbadora em Peter. Seus sentidos ficam ainda mais aguçados, seu comportamento se torna mais agressivo durante os combates e seus olhos assumem uma aparência negra. Para completar, ele passa a produzir teias orgânicas, em uma referência bastante clara à versão do personagem interpretada por Tobey Maguire.

Uma ameaça invisível e uma nova descoberta
Como se todos esses problemas já não fossem suficientes, Peter precisa lidar com uma ameaça diferente. Um misterioso vilão psíquico, praticamente invisível, possui a capacidade de controlar mentes e corpos humanos e passa a atacar o Departamento de Controle de Danos (DODC).
Peter parece ser a única pessoa imune aos poderes dessa entidade. Por isso, Bill Metzger, chefe do DODC, interpretado por Tramell Tillman, decide recorrer ao Homem-Aranha para tentar capturar a ameaça. A ideia abre espaço para uma das soluções visuais mais interessantes do filme.
Em vez de depender exclusivamente de CGI para representar o controle dos corpos, Cretton utiliza um coreógrafo de dança para desenvolver a movimentação dos personagens afetados. O trabalho foi utilizado para determinar como os corpos humanos reagiriam biomecanicamente ao controle da entidade e para coordenar os movimentos dos atores durante as cenas.

A identidade da figura encapuzada acaba sendo uma das grandes revelações da história: trata-se de Jean Grey, interpretada por Sadie Sink. Peter consegue derrotá-la e entrega a personagem ao DODC. No entanto, pouco depois, descobre que existe uma história muito mais complexa.
Jean está procurando sua irmã, Sara, que foi sequestrada pelo próprio DODC para ser utilizada em experimentos. A revelação funciona bem porque coloca Peter diante de uma situação mais complicada. Jean pode ser vista como uma ameaça, mas também é uma vítima. E o DODC, que inicialmente parece estar simplesmente tentando proteger a sociedade, começa a revelar um lado muito mais questionável.
O amadurecimento de Peter Parker
Essa situação se encaixa perfeitamente no arco emocional de Peter. Um Novo Dia apresenta um personagem que está deixando definitivamente para trás os anos de adolescência e começando a compreender o que significa amadurecer. Peter precisa perceber que nem sempre aqueles que dizem estar fazendo o bem são realmente os “mocinhos”. Ao mesmo tempo, precisa compreender que as pessoas nem sempre podem ser classificadas simplesmente como heróis ou vilões. Jean é vítima e ameaça ao mesmo tempo, enquanto o DODC, inicialmente apresentado como uma instituição responsável por manter a ordem, também possui seus próprios interesses.
Mas a principal transformação acontece dentro do próprio Peter.
Sua primeira reação diante da mutação é tentar eliminá-la. Ele quer suprimir as novas características de seu corpo, da mesma maneira que Bruce Banner utiliza um inibidor para tentar manter o Hulk sob controle. É nesse momento que Banner apresenta uma questão bastante importante:
Como alguém pode decidir quais partes são boas ou ruins?

Essa pergunta resume boa parte do que o filme pretende discutir. Peter passou anos tentando reconstruir sua vida depois do feitiço do Doutor Estranho. Agora, precisa também aceitar que ele próprio está mudando. No final, compreender e aceitar essas transformações se torna parte fundamental de seu amadurecimento como Homem-Aranha.
Peter e MJ: amar alguém que não se lembra de você
O relacionamento entre Peter e MJ também recebe um tratamento bastante interessante. O filme não escolhe o caminho mais fácil para resolver essa situação.
Quando MJ encontra acidentalmente a carta que Peter escreveu e nunca entregou no final de Sem Volta Para Casa, ela confronta o personagem e descobre que os dois já tiveram um relacionamento. Peter reafirma que ainda a ama, mas recebe uma resposta dolorosa: MJ não sente o mesmo.
E existe uma razão simples para isso. Ela não se lembra de Peter. Não se lembra do relacionamento, dos momentos que viveram juntos ou de tudo o que aconteceu antes do feitiço.
Para MJ, aquela história simplesmente não existe.
A reação de Tom Holland nesse momento é um dos grandes destaques do filme. Peter começa a conversa carregando uma esperança, mas precisa lidar rapidamente com uma realidade completamente diferente. A expressão do personagem ao perceber que o amor que ele carrega há anos não pode simplesmente ser recuperado é um dos momentos mais fortes da produção.

É essa humanidade que faz a história, pois Peter não precisa apenas enfrentar vilões, mas aprender a conviver com perdas que não podem ser resolvidas com seus poderes, suas teias ou tecnologia.
Um problema importante: as regras do feitiço
Apesar dos acertos, Um Novo Dia também apresenta algumas inconsistências. A principal delas está relacionada justamente ao funcionamento do feitiço que apagou Peter da memória das pessoas.
Se MJ precisa reconstruir uma relação com Peter por meio de novas experiências e novas memórias, fica difícil entender por que Ned consegue recuperar suas lembranças de Peter de maneira tão repentina depois que os dois realizam seu tradicional aperto de mão.
A questão parece pequena diante de tudo que o filme apresenta, mas chama atenção porque o próprio conceito de memória é fundamental para a história. Se Peter realmente precisa reconstruir sua relação com as pessoas que ama, seria importante que as regras estabelecidas anteriormente fossem respeitadas de maneira mais consistente.
As conexões com o MCU
Infelizmente, a maior fraqueza do filme está nas conexões aparentemente forçadas com os próximos acontecimentos do Universo Cinematográfico da Marvel.
A introdução de Jean Grey funciona bem dentro da história, principalmente porque essa versão da personagem ainda não é apresentada como integrante dos X-Men. Além disso, sua jornada emocional possui vários pontos de contato com a trajetória de Peter.
Já a presença do Justiceiro, Frank Castle, é uma escolha mais estranha. O personagem tradicionalmente está associado a histórias mais violentas e voltadas para o público adulto, mas Cretton encontra maneiras de adaptá-lo ao tom PG-13 da produção. Um exemplo divertido acontece quando o Homem-Aranha simplesmente cobre a boca do Justiceiro com suas teias no meio de um palavrão.
Ainda assim, Frank acaba tendo uma participação bastante relevante na trama principal.

A Mão é utilizada de maneira interessante, agora recrutada para trabalhar para o DODC e manipulada por Jean. Existe até espaço para Peter demonstrar, em meio a uma batalha, sua admiração pela habilidade dos integrantes do grupo. Bruce Banner funciona bem como personagem responsável por aconselhar Peter sobre sua mutação. A presença de Banner possui uma função clara.
Enquanto isso, outros vilões conhecidos, como Tombstone, Ramrod, Boomerangue e Tarantula, aparecem apenas rapidamente. Mac Gargan, o Escorpião, interpretado por Michael Mando, ao menos recebe algumas falas e uma participação um pouco mais significativa.

Quando a história pessoal é mais importante que o universo
Apesar do grande número de personagens, algumas escolhas questionáveis e certos buracos no roteiro, é a jornada pessoal de Peter Parker que acaba dominando o filme e nos conquista.
Homem-Aranha: Um Novo Dia consegue funcionar porque, por trás de todo o espetáculo, existe uma história simples sobre perda, amadurecimento, identidade e aceitação. Peter não está apenas tentando salvar Nova York, mas descobrindo como seguir em frente depois de perder as pessoas amadas.
O sucesso comercial do filme, que ultrapassou a marca de US$ 1 bilhão e passou a quebrar diferentes recordes, é uma excelente notícia para a Marvel. Kevin Feige, CEO da Marvel, chegou a declarar à Variety que o desempenho do Homem-Aranha era um “ótimo presságio” para os próximos filmes do MCU, incluindo Vingadores: Apocalipse, destacando a força de um universo compartilhado.
Mas talvez essa não seja a lição que a Marvel deveria tirar do sucesso de Um Novo Dia.
O que torna Homem-Aranha: Um Novo Dia especial não é a quantidade de conexões com o MCU, a presença de personagens conhecidos ou a possibilidade de preparar terreno para futuras produções. O filme funciona porque coloca Peter Parker no centro da história e permite que enfrente algo muito mais difícil do que qualquer vilão: a necessidade de reconstruir a própria vida.
Talvez esteja na hora de os grandes estúdios voltarem a apostar mais em filmes de super-heróis que consigam funcionar por conta própria, sem exigir do público um verdadeiro curso intensivo sobre todos os acontecimentos e personagens dos filmes anteriores. Um Novo Dia mostra que isso faz sucesso!











