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O Julgamento dos Poetas: entre Campos, Reis e Caeiro

O Julgamento dos Poetas: entre Campos, Reis e Caeiro

Olá, queridos leitores. Hoje, inicio uma nova série, a qual espero que vocês gostem. Não encerrei a série sobre os grandes educadores, apenas vou intercalar as postagens entre as duas séries e outros artigos que possam surgir.

Quanto à nova série, O Julgamento dos Poetas, vamos abordar vários grandes nomes da poesia e literatura e suas obras: até onde imaginação e criação, através do uso elaborado da das palavras, são válidas ao invés do uso da verdade nua e crua? Será que ambos não procuram o mesmo objetivo? Vamos lá!

Imaginem um tribunal literário, onde poetas de diferentes épocas fossem convocados para um julgamento metafísico, onde suas obras seriam analisadas como se fossem crimes ou virtudes, em um futuro em que a poesia é considerada perigosa, poetas são perseguidos e julgados por subversão da ordem. Ou, imaginem ainda, se os deuses do Olimpo, donos da palavra e da inspiração concedidas a algum mortal, decidissem julgar esse poetas, questionando se eles honraram ou deturparam o dom da poesia?

Para mim, o julgamento é e sempre foi interno: cada poeta, ao escrever, enfrenta seus próprios fantasmas, inseguranças e dilemas éticos, submetidos ao dom da palavra. Melhor ainda, estabelecendo uma comparação com os grandes filósofos que sempre buscaram explicar tudo não só através de fatos científicos, mas também à luz da filosofia.

E para iniciar nossa série, nada melhor que falarmos sobre um autor que, literalmente, são quatro pessoas em uma só: Fernando Pessoa, sob o julgamento de um dos meus filósofos preferidos, Platão.

Fernando Pessoa e Platão, em um encontro atemporal, como se razão e imaginação dialogassem sobre o mesmo assunto, mas com perspectivas diferentes.

O Julgamento Como Metáfora

O julgamento não é apenas uma figura jurídica, mas também ontológica: questiona o sentido da poesia na vida humana. Os poetas são acusados de excesso de beleza em um mundo pragmático, de mentir com metáforas em uma sociedade que exige literalidade, ou de perturbar a ordem ao despertar emoções profundas. O tribunal representa a razão instrumental, que tenta medir e controlar aquilo que é, por natureza, indomável: a palavra poética.

Em todos os tempos, a poesia é e sempre foi vista como testemunho da condição humana, revelando verdades que não cabem na lógica. O julgamento vai expor a tensão entre logos (razão) e mythos (imaginação). O poeta é simultaneamente culpado e inocente: culpado por desafiar o silêncio, inocente por apenas traduzir o indizível.

O julgamento dos poetas começa sempre com um nome, e talvez nenhum seja mais emblemático do que o de Pessoa, que multiplicou em si mesmo vozes e heterônimos, como se já antecipasse a ideia de que o poeta é, por essência, um ser em constante tribunal interior.

O julgamento não é externo apenas: é o confronto entre o que se escreve e o que se é, entre a verdade íntima e a máscara pública.

A poesia, desde os tempos antigos, foi acusada de enganar. Platão, em sua República, expulsava os poetas da cidade ideal, pois julgava que suas palavras criavam ilusões, afastando os homens da verdade. O julgamento dos poetas, portanto, é tão antigo quanto a própria filosofia: a palavra poética é vista ora como revelação, ora como ameaça. O poeta é suspeito porque ousa dizer o indizível, porque transforma o silêncio em canto, porque dá forma ao que não pode ser medido.

Mas se a razão julga, a poesia resiste. O poeta não é apenas um criador de versos, mas um intérprete da condição humana. Ele traduz o que não cabe em fórmulas, o que escapa ao cálculo. O julgamento dos poetas é, no fundo, o julgamento da própria humanidade diante de sua capacidade de imaginar. Condenar o poeta é condenar a imaginação; absolvê-lo é reconhecer que sem metáfora não há vida plena.

O tribunal, nesse ensaio, é simbólico. Nele, a acusação afirma: “A poesia mente, seduz, perturba.” A defesa responde: “A poesia revela, consola, desperta.”

O veredito, porém, nunca é definitivo. Cada geração reabre o processo, cada sociedade decide se acolhe ou rejeita a palavra poética.

Fernando Pessoa, ao multiplicar-se em Álvaro de Campos, Ricardo Reis e Alberto Caeiro, mostrou que o poeta é sempre múltiplo, sempre em julgamento. Ele é acusado de ser demasiadamente fragmentado, mas também é absolvido por mostrar que a verdade não é única, que a vida é feita de perspectivas.

O Tribunal Interior de Pessoa

Fernando Pessoa não criou pseudônimos apenas para assinar textos diferentes, ele criou vidas poéticas paralelas, cada uma com estilo, visão de mundo e até biografia própria. Em O julgamento dos poetas, esses heterônimos podem ser vistos como personagens do próprio tribunal, cada um assumindo um papel na acusação, na defesa, na dúvida e na transcendência.

Alberto Caeiro – O Poeta Absolvido

Caeiro é o poeta da natureza, da simplicidade, da presença. Ele rejeita metáforas, rejeita abstrações. Para ele, “pensar é estar doente dos olhos”. No tribunal, Caeiro seria o poeta que se recusa a ser julgado, pois sua poesia não quer convencer, apenas ser. Ele representa a inocência radical, o olhar puro, o testemunho do real sem adornos.

“O único mistério é não haver mistério.” — Caeiro

Alberto Caeiro e Fernando Pessoa, lado a lado, como dois polos da mesma alma poética….um simples e rural, o outro introspectivo e urbano….

Álvaro de Campos – O Poeta Acusado

Campos é o poeta da modernidade, do excesso, da angústia. Ele grita, sofre, se contradiz. No tribunal, ele seria o poeta acusado de perturbar a ordem, de ser demasiadamente humano, de transformar dor em arte. Sua poesia é um grito contra o mundo, e por isso, é vista como perigosa. Mas é também a mais sincera.

“Não sou nada. Nunca serei nada. Não posso querer ser nada.” — Campos

Álvaro Campos e Fernando Pessoa, dois lados da mesma alma poética: um com estilo intenso e dramático e o outro com seu estilo introspectivo e dramático.

Ricardo Reis – O Poeta que Julga

Reis é o poeta da razão, da medida, do estoicismo. Ele observa, pondera, aconselha. No tribunal, ele seria o juiz filosófico, aquele que tenta equilibrar emoção e razão, que busca entender o papel da poesia sem se deixar levar por ela. Sua poesia é contida, mas profunda. Ele representa o julgamento sereno, a busca por sabedoria.

“Sábio é o que se contenta com o espetáculo do mundo.” — Reis

Ricardo Reis e Fernando Pessoa, dois modos de existir diante da palavra: um com a postura clássica em um ambiente sereno; o outro introspectivo, urbano e cercado de livros.

Fernando Pessoa – O Poeta que é Todos

Pessoa é o tribunal inteiro. Ele é o criador e o réu, o juiz e o espectador. Em O julgamento dos poetas, ele representa a consciência poética fragmentada, o ser que se multiplica para compreender o mundo. Pessoa não busca absolvição — ele busca entender o mistério da criação, e por isso, sua poesia é um labirinto.

“Tenho em mim todos os sonhos do mundo.” — Pessoa

Imaginem que cada um faz parte um do outro e os quatro são a mesma pessoa, cada um com sua particularidade…

A Acusação de Platão e a defesa de Pessoa

Platão, em A República, foi talvez o primeiro grande acusador dos poetas. Para ele, a poesia era perigosa porque imitava a aparência das coisas, afastando os homens da verdade. O poeta, ao criar imagens e metáforas, seduzia a alma, mas não a conduzia ao conhecimento. Assim, o julgamento dos poetas começa com a expulsão da poesia da cidade ideal. A acusação é clara: o poeta mente, engana, fabrica ilusões.

Séculos depois, Fernando Pessoa encarna a defesa. Ele não é um, mas muitos: Álvaro de Campos, Ricardo Reis, Alberto Caeiro. Cada heterônimo é uma resposta à acusação platônica. Pessoa mostra que a poesia não é mentira, mas multiplicidade de verdades. O poeta não engana; ele revela que a realidade é feita de perspectivas. A defesa afirma: a poesia não afasta da verdade, mas mostra que a verdade é plural, fragmentada, infinita.

“O nome ecoa como um réu e como uma defesa. Ele entra no tribunal carregando não apenas sua voz, mas todas as vozes que inventou. O juiz o observa, mas como julgar alguém que é muitos? O julgamento dos poetas começa sempre com esse paradoxo: quem fala nunca é apenas um, mas uma multidão de silêncios e de cantos.

Platão ergue-se como acusador. Diz que a poesia é sombra, que engana, que afasta da verdade. O tribunal se enche de murmúrios: “O poeta mente.” Mas o poeta sorri. Ele sabe que a mentira da poesia é mais verdadeira do que qualquer cálculo. Ele sabe que a metáfora não engana, mas revela o que não pode ser dito de outro modo.”

Na modernidade, o julgamento se intensifica. A sociedade pragmática exige utilidade, produtividade, clareza. O poeta, ao insistir na beleza e no mistério, é novamente acusado de irrelevância. O tribunal moderno pergunta: para que serve a poesia? O poeta responde: não serve, mas é necessária. A poesia não é instrumento, é experiência. Ela não resolve problemas, mas revela dimensões da existência que o cálculo não alcança.

As testemunhas do julgamento são múltiplas. Filósofos como Nietzsche, que vê na arte a afirmação da vida. Leitores anônimos, que encontram consolo nos versos. As musas, que lembram que a poesia é dom e não apenas técnica. Cada testemunha reforça que o poeta não é criminoso, mas guardião de uma verdade que não se mede em números.

“O julgamento prossegue. A modernidade exige utilidade, exige clareza, exige números. O poeta é chamado ao banco dos réus: “Para que serve a poesia?” Ele responde com silêncio, e nesse silêncio há mais sentido do que em qualquer fórmula. A poesia não serve, mas é necessária. É inútil como o amor, como a beleza, como o sonho — e por isso é essencial.

As testemunhas se levantam. Nietzsche afirma que sem arte a vida seria insuportável. Um leitor anônimo confessa que encontrou consolo em um verso durante a noite mais escura. A musa, invisível, sussurra que a poesia não é técnica, mas dom. O tribunal hesita. O poeta não é criminoso, mas guardião de uma chama que insiste em arder.”

O veredito nunca chega. O julgamento dos poetas é eterno, suspenso, como um poema que não se fecha. Cada geração reabre o processo, cada sociedade decide se acolhe ou rejeita a palavra. Mas no fundo, não são os poetas que estão em julgamento. Somos nós. Somos nós que precisamos decidir se aceitamos viver apenas na lógica, ou se ousamos abrir espaço para o indizível.

“O poeta, sentado, espera o veredito. Ele não teme a sentença, porque sabe que sua culpa é também sua inocência. Ele escreve, e ao escrever, absolve a humanidade de sua própria secura. O julgamento dos poetas é o julgamento da imaginação, e a imaginação nunca se deixa condenar.”

No fundo, o julgamento dos poetas é o julgamento da própria humanidade. Ao decidir se condena ou absolve a poesia, o homem decide se aceita ou rejeita sua capacidade de imaginar, de sentir, de transcender. No fundo, não são os poetas que estão em julgamento, mas nós mesmos, enquanto seres que precisam decidir se aceitam ou rejeitam o poder transformador da palavra.

O julgamento dos poetas nunca termina. Cada heterônimo representa uma forma de existir diante da palavra. Juntos, mostram que o poeta não pode ser julgado por um único critério — porque ele é múltiplo, contraditório, infinito. E talvez, no fim, não sejam os poetas que estão em julgamento, mas nós mesmos, enquanto leitores e seres que precisam decidir se aceitam viver apenas na lógica ou se ousam abrir espaço para o indizível.

A poesia, como Pessoa, escapa ao veredito. Ela permanece, como sombra, como luz, como pergunta.

O poeta é apenas o espelho: o verdadeiro réu somos nós.

Espero que tenham gostado e não percam a continuação! Sugestões de grandes nomes da poesia? Contem para nós!

Até a próxima!

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Paula Vargas

É Editora e Autora do UniversoNERD.Net, Professora de Língua Portuguesa e Inglesa, Pedagoga, além de amante de leitura e Literatura,

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